Obra

HASARD

Quatro ruas. Quatro situações. Escolha a sua posição.
Em HASARD quatro situações contaminam umas às outras, utilizando a aleatoriedade como operação, possibilitando diferentes desdobramentos das ações, através das diferentes formas de jogo que o grupo propõe aos transeuntes durante a intervenção. As ações percorrem todo um quarteirão e o público terá sempre que se posicionar para acompanhar os desenlaces das tramas propostas.

HASARD (2012)

Editado em dezembro de 2012, este vídeo é o registro do processo de ensaios e apresentações de HASARD, em Florianópolis, Biguaçu, São José, Porto Alegre e São Paulo, ao longo desse ano.

HASARD surgiu da pesquisa do ERRO Grupo, pelo Programa Petrobras Cultural, sobre a relação de jogos na sociedade contemporânea — assunto explorado em outros trabalhos do grupo e aprofundado nessa obra sob a ótica dos jogos financeiros e de retenção de poder. O trabalho se desenvolve sob a tríade: mercado, manutenção do poder e jogos de azar, em uma miríade de caminhos e proposições que exploram a situação de perda à luz do controle e das leis do mercado em nosso cotidiano.

ORIGEM DO JOGO
A palavra azzahr denominava o jogo e os ossos em cubos numerados de um dos primeiros jogos conhecidos na história da humanidade. Os árabes jogavam azzahr durante o comércio com os europeus na Idade Média e na época disseminaram esse jogo de dados. Os franceses o chamaram de hasar ou hasard, significando aleatoriedade, chance, acaso, possibilidade de perda ou dano e risco, sendo registrado pela primeira vez como o sentido do verbo ‘colocar algo em jogo’, no caso, no jogo de azar. Durante as guerras entre a França e a Inglaterra nos séc. XIII e XIV, os ingleses aprenderam o jogo e o chamaram de hazard, significando ‘tirar a sorte ou o azar’, além dos significados atuais: ‘ameaça’, ‘perigo’. Em árabe, azzahr, az-Zahr ou al-Zahr são os nomes da própria peça do jogo, o dado.

A PESQUISA
HASARD surgiu da pesquisa do ERRO Grupo, pelo Programa Petrobras Cultural, sobre a relação de jogos na sociedade contemporânea – assunto explorado em outros trabalhos do grupo e aprofundado nessa obra sob a ótica dos jogos financeiros e de retenção de poder. O trabalho se desenvolve sob a tríade mercado, manutenção do poder e jogos de azar, em uma miríade de caminhos e proposições que exploram a situação de perda à luz do controle e das leis do mercado em nosso cotidiano.

Ao pesquisar sobre a origem dos jogos, o grupo se deparou com o raciocínio de que todo jogo nasce da profanação de um rito ou mito religioso. O jogo ignora a separação entre humano e divino ou faz dela um uso particular, não se origina apenas de uma esfera do sagrado, mas como representa a sua inversão e subversão.

Qual seria o jogo sagrado da sociedade contemporânea? Com esta indagação, o ERRO Grupo se apoiou nas conclusões do filósofo Walter Benjamin, quando afirma que o capitalismo é uma religião e não apenas um sistema político. Uma religião pagã onde o utilitarismo ganha sua coloração religiosa. Investir, comprar, apostar, manobrar a bolsa de valores, vender, etc., são práticas utilitárias do culto ao capitalismo. O ineditismo histórico desta religião é não buscar a reforma, mas a ruína do ser. Como coloca o estudioso Michael Löwy, a nossa culpa é o nosso endividamento para com o capital, perpétua e crescente, nenhuma esperança é permitida. Segundo a religião do capital, a única salvação reside na intensificação do sistema, na expansão capitalista, no acúmulo de mercadorias, mas isso só agrava o nosso desespero.

Tendo em vista que a regra é a base para todo jogo, o grupo recorreu a informações sobre quem controla e faz valer as regras deste jogo capitalista, aqueles que detêm o poder de julgar e de manter a ordem. O jogo não pertence à vida comum, se situa fora do mecanismo de satisfação imediata das necessidades e dos desejos e, pelo contrário, interrompe este mecanismo. Ele se insinua como atividade temporária, que tem uma finalidade autônoma e se realiza tendo em vista uma satisfação que consiste nessa própria realização e se apresenta como um intervalo em nossa vida cotidiana. O jogo ornamenta a vida, ampliando-a, e torna-se uma necessidade tanto para o indivíduo, como função vital, quanto para a sociedade, devido ao sentido que encerra à sua significação, seu valor expressivo, suas associações espirituais e sociais, em resumo, como função cultural, ao domínio do ritual, do culto e do sagrado.

Roger Caillois, teórico do jogo, estabeleceu categorias claras que dão conta das modalidades do ato de jogar, essas categorias estão representadas em HASARD na forma de quatro situações simultâneas em quatro ruas diferentes de um quarteirão. A competição (agon), a encenação ou simulacro (mimicry), o azar (alea) e a vertigem (ilinx), tais categorias podem combinar-se em face da complexidade do jogo.

Sobre a dramaturgia da peça, a atriz e dramaturga Luana Raiter afirma que “um dos objetivos do HASARD é expandir a arte para além de sua posição convencional, elitizada, intocável, comercial para apresentá-la como algo em movimento, como um jogo, e fazer de nossos rituais cotidianos espaços criativos e transformadores no espaço urbano”. O diretor e também dramaturgo Pedro Bennaton complementa: “A dramaturgia de HASARD não só é fragmentada como se propõe fragmentar, dividir o público. Ainda estamos explorando esse aspecto, e continuaremos durante a temporada, pois é o primeiro trabalho no qual dividimos as pessoas em múltiplos espaços de forma tão radical”, ressalta.

PROJETO MANUTENÇÃO DO ERRO
O ERRO Grupo, através do Programa Petrobras Cultural com o patrocínio da Petrobras, iniciou o projeto Manutenção do ERRO, em outubro de 2010 e o desenvolverá até novembro de 2012, nas cidades de Florianópolis e região, Porto Alegre e São Paulo. O objetivo do Petrobras Cultural é contemplar grupos de teatro dedicados à produção cênica contemporânea, com o patrocínio às ações continuadas de pesquisa, produção e difusão de seus trabalhos.

O projeto Manutenção do ERRO é dividido em duas etapas ao longo destes dois anos. Só em 2011, foram 33 apresentações na Grande Florianópolis com mostras do repertório do grupo, totalizando 25 mil espectadores, através das temporadas que o ERRO realizou dos espetáculos do repertório do grupo: Adelaide Fontana, Buzkashi, Escaparate, Desvio, Carga Viva, e Enfim um Líder, as oficinas Aberta ao ERRO, realizadas em 2010 e 2011, a oficina com o diretor argentino Emílio Garcia Wehbi, o intercâmbio artístico do ERRO com o Grupo Empreza/GO, assim como conversas com os profissionais convidados realizadas na sede do grupo e na Fundação Franklin Cascaes gratuitas e abertas ao público, e que se complementam nesse ano com as pesquisas e temporadas de HASARD, somando 55 apresentações em dois anos e cinco oficinas formativas.

PETROBRAS CULTURAL
O Projeto Manutenção do ERRO é um dos projetos selecionados pelo Programa Petrobras Cultural que é destinado à seleção pública de projetos em 19 áreas culturais, dentro das três linhas de atuação: Formação; Preservação e Memória; e Produção e Difusão. Criado em 2003, o PPC baliza as ações de patrocínio da Petrobras em torno de uma política cultural de alcance social e de afirmação da identidade brasileira. Desde sua primeira edição, as seleções públicas já destinaram R$ 250 milhões a mais de mil projetos em todos os estados do país através da Lei Rouanet. Obtenha mais informações em http://www.hotsitespetrobras.com.br/ppc/.

HASARD
Ficha Técnica
Concepção e dramaturgia: Luana Raiter e Pedro Bennaton
Direção: Pedro Bennaton
Atores: Luana Raiter, Luiz Henrique Cudo, Michel Marques e Sarah Ferreira
Performers: Rodrigo Ramos, Dilmo Nunes, Robison Soletti e Crica Gadotti
Direção de Arte: ERRO Grupo
Sonoplastia: Isaac Varzim
Técnicos de som e vídeo: Michel Marques, Rodrigo Ramos e Robison Soletti
Cenotécnica: Crica Gadotti
Contra-regra: Ângelo Giotto
Design-gráfico: Fabrício Faustin Rezende e Rafael Amaral
Baralho: Leandro Pitz
Textos baralho: Luana Raiter e Pedro Bennaton
Fotografia: Larissa Nowak, Ana Carolina Von Hertwig, Pedro Bennaton e Rafael Schlichting
Filmagem: Rafael Schlichting, Ana Carolina Von Hertwig, Pedro Bennaton e Sarah Ferreira
Edição de vídeo: Rafael Schlichting e Sarah Ferreira
Assessoria de imprensa: Juliana Bassetti
Web-designer: Henrique Palazzo – Estúdio Obra
Contabilidade: Cultura Contábil
Criação, realização e produção: ERRO Grupo

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