{"id":324,"date":"2011-02-20T15:22:21","date_gmt":"2011-02-20T15:22:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/?p=324"},"modified":"2011-02-20T15:22:21","modified_gmt":"2011-02-20T15:22:21","slug":"erro-grupo-e-a-invasao-pela-formulacao-de-desvios-de-discursos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/02\/20\/erro-grupo-e-a-invasao-pela-formulacao-de-desvios-de-discursos\/","title":{"rendered":"Erro Grupo e a invas\u00e3o pela formula\u00e7\u00e3o de desvios de discursos"},"content":{"rendered":"<p><em>por Marco Vasques<\/em><\/p>\n<p>I<br \/>\nO teatro de rua, ou melhor, o teatro feito para ser apresentado na rua quase sempre tem o car\u00e1ter de divertir, de alegrar, de envolver o passante atrav\u00e9s do clown, da burla, da f\u00e1bula. \u00c9 bom lembrar que no s\u00e9culo VI a.C. T\u00e9spis j\u00e1 fazia suas apresenta\u00e7\u00f5es, em um carro, no meio do mercado de Atenas. O que equivale dizer que o teatro nasceu na rua. Se levarmos em considera\u00e7\u00e3o que os ritos tribais\/m\u00edticos, anteriores a T\u00e9spis, est\u00e3o imbu\u00eddos da atitude c\u00eanica [Kristeva] confirmamos o car\u00e1ter p\u00fablico e mundano da arte teatral. \u00c9 bom alertar que divertir e alegrar s\u00e3o qualidades [Brecht] e n\u00e3o defeitos, sobretudo quando apresentam outras camadas de leituras. O Erro Grupo apresentou em Brusque, durante o Festival Catarinense de Teatro, seu novo trabalho FORMAS DE BRINCAR. As interven\u00e7\u00f5es no ambiente urbano e na paisagem humana reafirmam as pesquisas que o grupo vem desenvolvendo h\u00e1 10 anos. \u00c9 da morte do esp\u00edrito l\u00fadico, da aus\u00eancia de espontaneidade, da mecaniza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, da petrifica\u00e7\u00e3o da carne, da coisifica\u00e7\u00e3o do homem, da sexualidade, das disputas infundadas, da banaliza\u00e7\u00e3o do jogo e da institucionaliza\u00e7\u00e3o dos sentidos que fala FORMAS DE BRINCAR. N\u00e3o precisamos chegar aos fil\u00f3sofos [Huizinga, Baudrillard e Foucault] que norteiam o trabalho do grupo porque podemos passar, antes, pelos mitos gregos, romanos e crist\u00e3os, pelos textos sagrados, por Marqu\u00eas de Sade e Rimbaud. As atrizes Luana Raiter, Sarah Ferreira e Paula Felitto levam os transeuntes \u00e0 estupefa\u00e7\u00e3o, ao espanto [Plat\u00e3o], ao prazer e ao estranhamento porque leem os espectadores pelo toque, pela provoca\u00e7\u00e3o, pela brincadeira, pela ranhura na pele e pelo convite \u00e0 an\u00e1lise [f\u00edsica e ps\u00edquica] das a\u00e7\u00f5es que o espet\u00e1culo desencadeia no ambiente, na paisagem e nos homens que vivem o trabalho FORMAS DE BRINCAR. \u00c9 na \u00f3rbita do desvio [nome de um dos espet\u00e1culos do grupo], do estranhamento, da surpresa, da ocupa\u00e7\u00e3o\/posse do ambiente, do deslocamento, da fratura [exposta] e da a\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que FORMAS DE BRINCAR se situa. Transita entre os conceitos de presen\u00e7a do ator [Richard Schechner] e o teatro in\/vis\u00edvel [Augusto Boal]. \u00c9 na formula\u00e7\u00e3o do discurso que a teia das a\u00e7\u00f5es do Erro Grupo reverbera. Entrar do jogo de alguns de seus espet\u00e1culos \u00e9 navegar numa linha t\u00eanue entre real e o ficcional. \u00c9 um teatro descontaminado de teatro, contudo teatralidade pura. \u00c9, tamb\u00e9m, um teatro de ironia refinada que ilumina sobre a luz [Di\u00f3genes].<\/p>\n<p>II<br \/>\nTr\u00eas mulheres, em uma pra\u00e7a p\u00fablica, vestidas com roupas que representam culturas distintas se apresentam; elas fazem uma esp\u00e9cie de exibi\u00e7\u00e3o de suas cren\u00e7as. N\u00e3o se toleram. Ao t\u00e9rmino da exibi\u00e7\u00e3o tiram suas roupas e entram numa luta corporal. Mas n\u00e3o \u00e9 uma luta corporal qualquer porque se agridem a partir dos s\u00edmbolos de suas ra\u00edzes, se mutilam com\/pelo s\u00edmbolo. Ap\u00f3s a cena de viol\u00eancia e de intoler\u00e2ncia as tr\u00eas mulheres se dirigem ao p\u00fablico, de l\u00e1pis nas m\u00e3os, e travam uma luta pela corre\u00e7\u00e3o do corpo. Sim! O pedido \u00e9 para que o p\u00fablico v\u00e1 a alguma das atrizes-mulheres e risque a \u201cparte mais feia da outra\u201d. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de julgamento e sacrif\u00edcio em p\u00fablico. Enquanto isso os atores Michel Marques e Juarez Nunes brincam o jogo popular das Cinco Marias. Contudo o jogo, que tem na sua origem o aspecto puramente l\u00fadico, passa por uma disputa monet\u00e1ria que interfere intertextualmente nas a\u00e7\u00f5es das atrizes. Estas duas cenas nos oferecem material para in\u00fameras p\u00e1ginas. Mas o p\u00fablico \u00e9 tomado pelos m\u00faltiplos jogos ofertados. As atrizes usam seus corpos e tomam de empr\u00e9stimo v\u00e1rios corpos de espectadores que passam a fazer parte da cena, passam a atuar e saem da condi\u00e7\u00e3o tradicional de passividade. Passam a atuar e, em alguns momentos, se tornam o centro da a\u00e7\u00e3o c\u00eanica. Mas FORMAS DE BRINCAR \u00e9 tomado de uma ironia acerba e de um niilismo [Nietzsche] capazes de tatuar, para sempre, um desconforto na vida-rotina de quem vive e entra em suas perversidades brincantes. Numa sociedade em que tudo \u00e9 mensurado pela mat\u00e9ria, pela posse, pelo poder, por t\u00edtulos e categoriza\u00e7\u00f5es FORMAS DE BRINCAR apresenta, ao final, uma vota\u00e7\u00e3o p\u00fablica com intuito de premiar a performance das atrizes. A vencedora receber\u00e1 um trof\u00e9u: a caveira de um gado. \u00c9 na linguagem e na fala\/mito [Barthes] que reside a for\u00e7a conceitual do trabalho do Erro Grupo. Temos que entrar na vida de FORMAS DE BRINCAR como se deve entrar na leitura do livro O Jogo da Amarelinha de Cort\u00e1zar, isto \u00e9, olhar as multiplica\u00e7\u00e3o\/fragmenta\u00e7\u00e3o de todos os todos. Acompanho a trajet\u00f3ria do Erro Grupo desde de sua forma\u00e7\u00e3o [2001] e posso assegurar que estamos diante de um grupo de experimentos radicais que colocam em quest\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 a pasteuriza\u00e7\u00e3o social, mas o pr\u00f3prio teatro e sua pr\u00e1tica. H\u00e1 na est\u00e9tica do grupo uma minimiza\u00e7\u00e3o dos elementos tradicionais do teatro [dramaturgia, cen\u00e1rio, ilumina\u00e7\u00e3o] e uma apropria\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os urbanos: pra\u00e7as, pr\u00e9dios, ruas, casas etc. A cidade \u00e9 envolvida organicamente na cena a ponto de toda ela se tornar o cen\u00e1rio e a a\u00e7\u00e3o teatral em si. Assim foi com ENFIM UM LIDER, ESCAPARATE, DESVIO e assim \u00e9 agora com FORMAS DE BRINCAR. \u00c9 no desvio do discurso das a\u00e7\u00f5es tradicionais, coisificadas e embrutecidas que a vida teatral [Peter Brook] do Erro Grupo, dirigido por Pedro Bennaton, formula sua rota de colis\u00e3o, de enfrentamento e de desnudamento dos aspectos mais escrotos da falsa sanidade que nos cerca. \u00c9 a linguagem e seus processamentos que moram no linguajar do Erro Grupo. Jean-Paul Sartre, em\u00a0<em>Qu\u2019est ce que la litt\u00e9rature<\/em> afirma que nenhuma arte pode ser atual se n\u00e3o buscasse o \u201cbrutal frescor do acontecimento, sua ambiguidade, sua imprevisibilidade [&#8230;] queremos agarrar nosso p\u00fablico pela garganta: seja cada personagem uma armadilha, seja o leitor apanhado nela e seja ele arremessado de uma consci\u00eancia para outra como de um universo absoluto e irremedi\u00e1vel para outro analogamente absoluto: fique ele incerto sobre a pr\u00f3pria incerteza dos her\u00f3is\u2026\u201d. FORMAS DE BRINCAR \u00e9 brutal, terno e capaz de incomodar at\u00e9 o mais obtuso dos homens.<\/p>\n<p><em>Fonte <a href=\"http:\/\/revistaosiris.wordpress.com\/2011\/02\/18\/erro-grupo-e-a-invasao-pela-formulacao-de-desvios-de-discursos\/\" target=\"_blank\">Revista Os\u00edris<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Erro Grupo comemora seus 10 anos com a montagem do espet\u00e1culo Formas de Brincar <a href=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/02\/20\/erro-grupo-e-a-invasao-pela-formulacao-de-desvios-de-discursos\/\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-324","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=324"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":325,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324\/revisions\/325"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}