{"id":1785,"date":"2012-05-18T22:33:41","date_gmt":"2012-05-18T22:33:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/?p=1785"},"modified":"2014-10-29T14:27:12","modified_gmt":"2014-10-29T14:27:12","slug":"hasard","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2012\/05\/18\/hasard\/","title":{"rendered":"hasard"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/hasard-principal.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1793\" title=\"hasard principal\" src=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/hasard-principal.jpg\" alt=\"\" width=\"590\" height=\"209\" srcset=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/hasard-principal.jpg 820w, http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/hasard-principal-300x106.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 590px) 100vw, 590px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>hasard<\/strong><\/p>\n<p>Os lugares onde voc\u00ea pisar, tudo o que voc\u00ea tocar, tudo que voc\u00ea deixar, at\u00e9 mesmo inconscientemente, servir\u00e1 como evid\u00eancia contra voc\u00ea. N\u00e3o apenas as suas impress\u00f5es digitais ou as suas pegadas, mas tamb\u00e9m seus fios de seu cabelo, as fibras de suas roupas, seus copos, as marcas que voc\u00ea deixa, as pinturas que voc\u00ea arranha, o sangue ou s\u00eamen que voc\u00ea deposita ou coleta &#8211; tudo isso e outros vest\u00edgios s\u00e3o testemunhas contra voc\u00ea. Estas s\u00e3o as evid\u00eancias que n\u00e3o desaparecem, que n\u00e3o s\u00e3o esquecidas, que n\u00e3o ficam confusas pela excita\u00e7\u00e3o do momento e que n\u00e3o s\u00e3o ausentes, como s\u00e3o as testemunhas humanas. S\u00e3o as evid\u00eancias efetivas que nunca estar\u00e3o equivocadas; n\u00e3o podem perjurar-se. Somente as interpreta\u00e7\u00f5es destas evid\u00eancias podem estar erradas e apenas o fracasso humano em encontr\u00e1-las, estud\u00e1-las e entend\u00ea-las poder\u00e1 diminuir o seu valor.<\/p>\n<p>As cidades, os governos, os estados, as na\u00e7\u00f5es s\u00e3o mortais. Tudo, naturalmente, por acidente, mais cedo ou mais tarde chega a seu limite e tende a acabar. Um cidad\u00e3o que v\u00ea a derrocada de sua terra, n\u00e3o tem com o que se lamentar, tanto pela desgra\u00e7a dessa terra e pela situa\u00e7\u00e3o em que ela se encontra. Mas, ao inv\u00e9s disso, ele deve chorar a sua pr\u00f3pria infelicidade, porque para a cidade aconteceu o que esperadamente aconteceria e a real infelicidade foi nascer no momento em que se sucede tamanho desastre.<\/p>\n<p>Ao refletirmos sobre a obra de 2012, sobre o jogo em nossa sociedade, como propusemos em nosso projeto de manuten\u00e7\u00e3o, tivemos que percorrer um caminho \u00e1rduo ao redor do tema, sendo que ele j\u00e1 foi explorado em outros trabalhos do ERRO Grupo como em <em>Buzkashi<\/em>, <em>Formas de Brincar<\/em>, <em>Palavras decifram charadas e movimentos fazem dispositivo funcionar<\/em>, entre outros. No decorrer desta pesquisa o grupo percorreu diversas refer\u00eancias, como Johan Huizinga, Jacques Ranci\u00e9re, Guy Debord, Fredric Jameson, Michel Maffesoli e Gilles Deleuze. Atualmente, para pensar e criar um trabalho sobre o jogo do capital, das bolsas, dos cr\u00e9ditos, o ERRO se debru\u00e7ou, al\u00e9m desta gama de refer\u00eancias citadas acima, em escritos de Walter Benjamin, Karl Marx, Giorgio Agamben, Gustav Landauer, Paul Kirk e Michael L\u00f6wy e em textos dramat\u00fargicos como <em>Fim de jogo<\/em> de Samuel Beckett, <em>O jogador <\/em>de Fiodor Dostoi\u00e9vski, <em>O processo<\/em> e <em>A constru\u00e7\u00e3o<\/em> de Franz Kafka, <em>O interrogat\u00f3rio<\/em> e <em>O novo processo <\/em>de Peter Weiss, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de manuais de diversas atividades, tais como controle de multid\u00f5es, manipula\u00e7\u00e3o de armas e explosivos, mercado futuro, etc.<\/p>\n<p>Em <em>Profana\u00e7\u00f5es<\/em>, Giorgio Agamben afirma que todo jogo nasce da profana\u00e7\u00e3o de um rito ou mito religioso. Profanar significa a possibilidade de uma forma especial de neglig\u00eancia que ignora a separa\u00e7\u00e3o entre o humano e o divino, ou faz dela um uso particular. O jogo n\u00e3o s\u00f3 vem de uma esfera do sagrado, mas como representa a sua invers\u00e3o.<\/p>\n<p>O caminho tamb\u00e9m se mostrou \u00e1rduo, pois n\u00f3s sujeitos j\u00e1 n\u00e3o sabemos mais jogar, o que fica comprovado pela multiplica\u00e7\u00e3o constante de novos e velhos jogos que tudo que fazem \u00e9 tentar resgatar a profana\u00e7\u00e3o ora espont\u00e2nea de ritos e mitos. Ou seja, tenta-se secularizar o jogo, em uma tentativa de deixar intacto o mito e\/ou rito, de apenas desloc\u00e1-lo de um local a outro. Deixando a sua integridade intacta. Profanar \u00e9 resgatar algo que est\u00e1 fora de alcance do uso comum e devolv\u00ea-lo ao espa\u00e7o comum.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel dizer, segundo Agamben, que h\u00e1 jogo quando o rito \u00e9 utilizado separado do mito, ou vice-versa. O que significa que o jogo libera e desvia a humanidade da esfera do sagrado, mas sem a abolir simplesmente. Tanto que <em>profanare<\/em> como coloca o autor, significa tanto \u201cconsagrado aos Deuses\u201d quanto \u201cmaldito, exclu\u00eddo da comunidade\u201d. A profana\u00e7\u00e3o dos jogos se apropria de estrat\u00e9gias utilit\u00e1rias, e as desvia para outra dimens\u00e3o, a da subvers\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir da id\u00e9ia de que os jogos s\u00e3o criados a partir da subvers\u00e3o de um rito religioso, pensamos sobre o que seria esse rito religioso na sociedade, e chegamos ao artigo de Walter Benjamin, <em>O capitalismo como religi\u00e3o<\/em>. Walter Benjamin sugere que o capitalismo \u00e9 uma religi\u00e3o puramente cultural, talvez a mais extremamente cultual que j\u00e1 existiu \u201cnada nela tem significado que n\u00e3o esteja em rela\u00e7\u00e3o imediata com o culto, ele n\u00e3o tem dogma espec\u00edfico nem teologia. O utilitarismo ganha, nesse ponto de vista, sua colora\u00e7\u00e3o religiosa.&#8221; Investir, comprar, apostar, manobrar a bolsa de valores, vender, s\u00e3o pr\u00e1ticas utilit\u00e1rias do culto ao capitalismo. Uma religi\u00e3o pag\u00e3, sem preocupa\u00e7\u00f5es transcendentais, pr\u00e1tica, onde o que conta s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como escreveu o pensador anarquista Gustav Landauer, o \u00fanico Deus, o \u00fanico \u00eddolo, a que os humanos d\u00e3o as suas vidas \u00e9 o dinheiro, artificial e vivo. Este \u00eddolo, o dinheiro, produz dinheiro e mais dinheiro, e isto lhe confere todo o poder do mundo. Todos n\u00f3s podemos ver, hoje em dia, que o dinheiro, que este Deus, n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma inven\u00e7\u00e3o dos seres humanos, algo que se tornou uma coisa viva, um monstro que faz residir nele o vazio sentido de nossas vidas. Segundo Landauer, \u201co dinheiro n\u00e3o cria riqueza, ele \u00e9 a riqueza; ele \u00e9 a riqueza em si; n\u00e3o existe outro rico al\u00e9m do dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>Existem outras evid\u00eancias de que o capitalismo se configura como religi\u00e3o &#8211; a caracter\u00edstica de culto e a quest\u00e3o da culpa. Segundo Benjamin, &#8220;a dura\u00e7\u00e3o do culto \u00e9 permanente&#8221;. O capitalismo \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o de um culto sem tr\u00e9gua e sem piedade e na religi\u00e3o capitalista, cada dia se v\u00ea a mobiliza\u00e7\u00e3o sagrada &#8211; os rituais nas bolsas de valores ou nas f\u00e1bricas &#8211; enquanto os adoradores seguem, com ang\u00fastia e tens\u00e3o extrema, a subida ou a descida das cota\u00e7\u00f5es das a\u00e7\u00f5es. Este culto n\u00e3o \u00e9 expiat\u00f3rio, mas culpabilizador e, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar, no sistema da religi\u00e3o capitalista, a &#8220;culpa m\u00edtica&#8221; da d\u00edvida econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de que temos deveres para com as posses que nos foram confiadas e \u00e0s quais estamos subordinados. Quanto mais aumentamos os nossos bens, mais latente torna-se o sentimento de responsabilidade que nos obriga a aument\u00e1-los por meio de um trabalho sem descanso, fazendo com que a culpa entre \u00e0 for\u00e7a na consci\u00eancia. Como coloca o estudioso Michael L\u00f6wy: \u201co capitalista deve constantemente aumentar e ampliar seu capital, sob pena de desaparecer diante de seus concorrentes, e o pobre deve emprestar dinheiro para pagar suas d\u00edvidas. Somos instados a pensar que a \u00fanica salva\u00e7\u00e3o reside na expans\u00e3o capitalista e no ac\u00famulo de mercadorias, mas isso s\u00f3 faz agravar o nosso desespero.<\/p>\n<p>O jogo do mercado, utilizando os conceitos de jogo elaborados por Johan Huizinga em <em>Homo Ludens<\/em>, nos leva a vermos que estamos perante um mundo em que a decis\u00e3o por or\u00e1culos, pelo ju\u00edzo divino, pela sorte, por sortil\u00e9gio \u2014 isto \u00e9, atrav\u00e9s de jogos<em> <\/em>\u2014 est\u00e1 controlado por uma \u00fanica regra, o lucro do capital. A nossa ansiedade em sermos os primeiros assume tantas formas de express\u00e3o quantas as oportunidades que a sociedade oferece, as maneiras segundo as quais os homens s\u00e3o capazes de competir pela superioridade s\u00e3o t\u00e3o variadas quanto os pr\u00eamios que s\u00e3o poss\u00edveis de se ganhar. Contudo, para o mercado h\u00e1 apenas um vencedor em todos os jogos sociais: o dinheiro.<\/p>\n<p>Nossas decis\u00f5es podem ser dadas por nossas sortes, azares, for\u00e7as, destrezas, lutas, etc., tamb\u00e9m podem ocorrer atrav\u00e9s de competi\u00e7\u00f5es de coragem e resist\u00eancia, habilidades, conhecimentos, respostas a determinadas perguntas, fanfarronice ou ast\u00facia, ou seja, o jogo permite-se assumir a forma de um or\u00e1culo, de uma aposta, de um julgamento, de um voto ou de um enigma, mas, seja qual for a sua forma em nossa sociedade contempor\u00e2nea ele estar\u00e1 regido pelas leis do mercado e \u00e9 sob este ponto de vista que devemos interpretar a sua fun\u00e7\u00e3o cultural a ser profanada.<\/p>\n<p>Dramaturgia: Luana Raiter e Pedro Bennaton (Dezembro de 2011)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito em dezembro de 2011, o texto a seguir \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o conceitual para hasard, novo trabalho do ERRO Grupo, que estreou no dia 09 agosto de 2012 em Florian\u00f3polis. <a href=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2012\/05\/18\/hasard\/\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4,44],"tags":[],"class_list":["post-1785","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-pesquisas","category-projetos"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1785","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1785"}],"version-history":[{"count":31,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1785\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2256,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1785\/revisions\/2256"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1785"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1785"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1785"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}