{"id":1043,"date":"2011-05-08T23:16:01","date_gmt":"2011-05-08T23:16:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/?p=1043"},"modified":"2011-05-08T23:16:01","modified_gmt":"2011-05-08T23:16:01","slug":"sobre-formas-em-poa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/05\/08\/sobre-formas-em-poa\/","title":{"rendered":"Sobre Formas em POA"},"content":{"rendered":"<div>\n<h1>Corpo em\u00a0confronto<\/h1>\n<p>No alto, sobre as cabe\u00e7as dos que  ali passavam, pendiam em cordas tr\u00eas caveiras de bois (ou vacas). A  princ\u00edpio, uma imagem destoante, sem nexo com todo o cen\u00e1rio que se  desenhava: ao longo do Brique da Reden\u00e7\u00e3o, uma charmosa feira junto ao Parque Farroupilha,  em Porto Alegre, viam-se bugigangas, artesanatos, crian\u00e7as ind\u00edgenas  correndo e brincando ao lado dos rostos doloridos de seus familiares,<strong> <\/strong>palha\u00e7os, atores, m\u00fasicos, placas em respeito ao <a href=\"http:\/\/www.ftrpa.com.br\/\" target=\"_blank\"><em>3\u00ba Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre<\/em><\/a> e  muitos olhares distra\u00eddos. Em um momento, esquece-se das caveiras: numa  mesa colocada, repentinamente, ao meio da rua, perto de onde  balan\u00e7avam, dois homens ensinam a brincar de Cinco Marias, um jogo  popular em que se lan\u00e7a uma pedrinha ao alto, uma <em>Maria<\/em>, e se  tenta apanhar as que est\u00e3o na mesa \u2013 no caso espec\u00edfico, brincavam com  tr\u00eas delas. Um som, ent\u00e3o, irrompe de algum lugar ali pr\u00f3ximo: uma  m\u00fasica estranha cantada em ingl\u00eas por uma voz masculina e, misturada a  ela, em portugu\u00eas, outro homem nos falando coisas que se confundiam com o  barulho da rua; em um momento se ouvia: \u201cexistem duas grandes armas: a  l\u00e1grima e a maquiagem\u201d, frase aparentemente atribu\u00edda a Napole\u00e3o  Bonaparte sobre as mulheres.<\/p>\n<p>Em seguida, tr\u00eas pares de saltos altos,  cal\u00e7as grudadas ou saias curtas e maquiagens por fazer destoam da  multid\u00e3o, caminhando esdruxulamente, perfazendo um c\u00edrculo de curiosos  debaixo das caveiras. A mesa, ent\u00e3o, \u00e9 tirada da rua e a aten\u00e7\u00e3o se  volta para a estranheza do que se v\u00ea: tr\u00eas mulheres, de passos firmes,  revezam-se ao microfone, apuram-se para a maquiagem, cortejam os homens  que ali est\u00e3o, rebolam e cantam desleixadamente, com emo\u00e7\u00e3o exacerbada.  Um dos rapazes que brincava \u00e0 mesa vai se embrenhando no c\u00edrculo,  distribuindo o programa da apresenta\u00e7\u00e3o. Pede para votarmos em uma  delas, a que mais gostamos: a \u00faltima folha, a se destacar, disp\u00f5e de  tr\u00eas quadradinhos e ao lado de cada um deles a descri\u00e7\u00e3o de uma das  Marias em disputa: \u201ccachos definidos, bunduda e sorridente\u201d, \u201cloira,  esbelta e de olhos verdes\u201d e \u201cmorena, cabelos lisos e olhar fulminante\u201d.<\/p>\n<p>Esta estranheza vai se intensificando \u00e0  medida que as tr\u00eas passam a se descontrolar, o que \u00e9 acompanhado, em  conson\u00e2ncia, com as pe\u00e7as de roupa que tiram ou arrancam umas das  outras. N\u00e3o mais se revezam, lutam pelo microfone; n\u00e3o mais cantam,  gritam.<\/p>\n<p>O ato de desnudar-se pode ser comparado,  alegoricamente, ao de livrar-se das regras e normas culturais. A roupa  incomoda, cola-se ao corpo e dificulta o movimento. Como se se  libertassem do jugo<strong> <\/strong>da sociedade, como se ca\u00edssem num  certo \u201cestado primordial\u201d em que a lei e as amarras da sociedade j\u00e1 n\u00e3o  mais servem de empecilho, estar nu \u00e9 estar livre. Na performance que se  via, por\u00e9m, esta \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o pode se efetivar em sua totalidade:  desnudando-se, trazem aos olhos de todos o colan<strong> <\/strong>que  lhes molda o corpo, o silicone que lhes incha o suti\u00e3. Os corpos que  continuam presos a estas mesmas \u201cregras e normas culturais\u201d, n\u00e3o podem  se libertar. E jamais poderiam. O que trazem \u00e0 tona, ent\u00e3o, \u00e9 a  crueldade deste tipo de organiza\u00e7\u00e3o social que molda e guia as pessoas  (em especial as mulheres) para esta viol\u00eancia contra seus corpos, contra  si mesmas.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que a aus\u00eancia de um figurino  art\u00edstico evidenciando uma performance, ou cen\u00e1rio indicando uma  apresenta\u00e7\u00e3o, demonstram a abrang\u00eancia do que se v\u00ea: os corpos que  digladiam pelo microfone, que se estapeiam, que se xingam, que se sujam,  que se esfregam e que se mostram, n\u00e3o se diferenciam do p\u00fablico e s\u00f3 se  destacam pelo grotesco das cenas. Um grotesco que extrapola por estar  naquele contexto espec\u00edfico, um domingo \u00e0 tarde no parque, mas que,  inserido em um outro contexto, programas televisivos, por exemplo,  torna-se usual.<\/p>\n<p><strong>Formas de Brincar<\/strong>, esta apresenta\u00e7\u00e3o pitoresca em que o corpo \u00e9 tratado de forma violenta, do ERRO Grupo,  explicita a mulher em sua condi\u00e7\u00e3o de mero objeto de gozo. Como objeto,  o corpo \u00e9 dissociado do sujeito, ou seja, \u00e9 um corpo que se comporta  n\u00e3o mais como <em>agente produtor<\/em>, mas apenas como mercadoria \u2013 est\u00e1, portanto, a ser consumido, disposto a tudo em nome deste consumo.<\/p>\n<p>E o grande p\u00fablico que ali permanecia,  de olhar estarrecido, debaixo das caveiras que aos poucos iam descendo,  sabia gozar: muitos aplausos e risos; ao meu lado pude ouvir um rapaz  dizer: \u201celas tem cara de cachorras, mesmo\u201d. As cenas fortes divertiam.  Mas tamb\u00e9m mostravam algo que escapa do mero riso: dif\u00edcil era achar  algu\u00e9m que entrasse no jogo: como espectadores, brincavam e riam, como  participantes, se acuavam. Era uma das Marias ir ao encontro de algu\u00e9m,  rebolar em sua frente, que o corpo antes agitado se retra\u00eda. Em um  momento uma delas chamou um senhor para dan\u00e7ar \u2013 senhor que h\u00e1 pouco  brincava e intervia nas demais apresenta\u00e7\u00f5es \u2013 que logo recusou,  envergonhado, como se n\u00e3o quisesse participar daquele tipo espec\u00edfico de  brincadeira.<\/p>\n<p>O bom senso, sempre extrapolado por  vozes desafinadas e gestos caricaturais, encabulava (ao ponto daquele  mesmo rapaz aconselhar, em tom jocoso, a uma conhecida ao seu lado,  precaver-se com a faculdade de artes c\u00eanicas para n\u00e3o acabar \u201cfazendo  isso na rua\u201d). E n\u00e3o poderia ser diferente.<\/p>\n<p>A vida, como \u201cuma experi\u00eancia hist\u00f3rica  que se tem com e no corpo\u201d*, se embrutece, torna-se mat\u00e9ria descart\u00e1vel \u00e0  medida que se incorpora a mercadoria como modelo das rela\u00e7\u00f5es humanas,  como agente constitutivo desta troca de experi\u00eancias. N\u00e3o apenas como  \u201caquilo que est\u00e1 \u00e0 venda\u201d, mas como bem-a-se-consumir, a mercadoria \u00e9  forma de controle de corpos e indiv\u00edduos. No caso espec\u00edfico da mulher,  mistifica-a ao passo em que a vulgariza.<\/p>\n<p>E isto numa \u00e9poca em que o corpo ganhou  lugar de destaque nas lutas pelas liberdades: em um s\u00e9culo se viu  mulheres queimarem suti\u00e3s nas ruas, o movimento gay surgir e ganhar  for\u00e7a, os <em>hippies<\/em> e <em>beatniks<\/em> abandonarem um mundo regrado e taxativo. O corpo, que para o engajado pensador alem\u00e3o Herbert Marcuse em seu <em>Eros e Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>,<em> <\/em>revoltou-se  contra a m\u00e1quina, num ato desesperado por se livrar das amarras de uma  sociedade mec\u00e2nica, cuja efici\u00eancia e racionalidade descartavam o  prazer, se v\u00ea novamente preso. Por\u00e9m, agora, aprisiona-se nas amarras de  uma beleza descart\u00e1vel, no imperativo do gozo. E assim, devemos, como  Marcuse, nos perguntar: como falar sobre \u201crepress\u00e3o\u201d, aprisionamento de  corpos, quando homens e mulheres vivem a \u00e9poca de maior liberdade  sexual?<\/p>\n<p>Sem esmiu\u00e7ar a quest\u00e3o, ou seja, sem explic\u00e1-la, traduzi-la de forma expl\u00edcita, <strong>Formas de Brincar <\/strong>permite ao p\u00fablico rir. \u00c9 neste riso que se pode perceber a crueldade a que o corpo \u00e9 submetido.<\/p>\n<p><em>* Maria Izilda S. de Matos em<\/em> Corpo \u2013 \u00c2ncora de Emo\u00e7\u00f5es: trajet\u00f3rias, desafios e perspectivas.<\/p>\n<p><em>Por Gyorgy Laszlo<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte: <a href=\"http:\/\/cenaderua.wordpress.com\/2011\/04\/28\/corpo-em-confronto\/\" target=\"_blank\">Blog Cena de Rua<\/a><br \/>\n<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div>Esta entrada foi publicada em <a href=\"http:\/\/cenaderua.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">cena de rua<\/a>.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto por Gyorgy Laszlo sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de Formas de Brincar realizada no Brique da Reden\u00e7\u00e3o no dia 10\/04\/2011 atrav\u00e9s do 3o. Festival de Teatro de Rua de Porto Alegre-RS. <a href=\"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/2011\/05\/08\/sobre-formas-em-poa\/\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-1043","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1043","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1043"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1043\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1044,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1043\/revisions\/1044"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1043"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1043"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.errogrupo.com.br\/v4\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1043"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}